Adelmo Simas GenroDiálogo com Ninguém Amanhã choverá de novo, apagando o estio deste outono. E a chuva respingará no espelho do rio, desfazendo as imagens dos meus fantasmas. A correnteza carregará reminiscências, misturada com o canto dos pássaros encolhidos nas forquilhas. E eu ficarei ouvindo o farfalhar dos ramos, o rumorejar das águas e o assobio do vento, porque a solidão é o diálogo com ninguém. Muito bem explicado Lembro de ter dito, certa feita, que, em 1935, houve festanças enormes em Porto Alegre. Aconteceu a grande exposição comemorativa do Centenário da Revolução Farroupilha. Gente de toda parte e de toda classe social inundou a Capital do Estado. Eu andava lá pelos quatorze anos. Também fui em companhia de meu pai e minha mãe. E o compadre Doralino, menos xucro que dona Zolina - que nem atada quis ir -, foi assistir aos festejos. A presença do Presidente da República, que chegou de hidroavião, de gradas autoridades civis, militares e eclesiásticas, representantes estrangeiros, enfim, uma avalanche praticamente esgotou a fauna gaúcha do interior do Estado. Digo fauna, porque houve, inclusive, a participação de espécimes animais em exposição, sem falar do bicho gente. O compadre Doralino ficou deslumbrado! Cores, luz, música, tudo encantava a população da cidade e visitantes vindos de outras cidades e grotas. Tanto foi o deslumbramento, que o compadre Doralino achou que devia marcar essa quadra gloriosa de sua vida com fotografias. Ali, bem na Praça XV, a do chalé, encontrou o lambe-lambe (fotógrafo que se posta com sua máquina assentada sobre um tripé) e foi logo dizendo: - Tira um retrato aí... seu retratista! Quanto vale a dúzia? - Dezoito mil réis... O compadre se aprumou, ajeitou o chapéu, deu um puxão na aba do casaco e autorizou: - Toca ficha!... Verdade é que ele, ao retornar para casa, levou como troféu uma dúzia de fotografias. Algumas delas para os parentes e outras para guardar como lembrança da sua aventura, já que naquele tempo não era qualquer vivente que ia a Porto Alegre. Mas olhando os retratos, quando da volta do marido, Dona Zolina achou uma delas muito estranha. Era uma moça morena, cabelos negros como "a asa da graúna", lábios abertos num sorriso enigmático... bonita mesmo! Dona Zolina não se sofreu e estourou: - Dora, que mulher é essa... Dora, me diz que mulher é essa, seu cachorro! - Não sei, Dora... sei eu quem é! - Como não sabe, seu sem-vergonha... me diz quem é essa mulher! Me explica, Dora?... E ele, então, explicou: - Eu nem conheço essa bisca... Acontece que eu tinha que pagar dezoito mil réis para o retratista. Eu não tinha trocado... dei vinte mil réis e ele me deu esse retrato de troco!... Meu compadre é muito inteligente. (Crônica do livro Compadre Doralino, 2001) |
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