Eu e meu pai
São escassas as lembranças da minha terra natal, Coronel Bicaco. Vivi lá só até meus quatro anos, mas alguns episódios serão sepultados comigo, como a imagem do meu querido pai, com o qual convivi muito pouco. Lembro-me como se fosse hoje daquele seu velho caminhão que voltava da caçada, trazendo um corpo sem vida. Aos 38 anos, o seu Tomaz teve sua luta cheia de glórias e planos interrompida por um tiro de espingarda, que se supôs ter disparada acidentalmente. Acabava ali a esperança dos filhos em mudar de vida pelas mãos do progenitor, homem que era considerado inventor naquela região. Inteligente por demais, sabia fazer de tudo um pouco: era marceneiro, carpinteiro, agricultor... Fazia qualquer coisa. Construiu até uma bicicleta de madeira em sua marcenaria. Meus irmãos e eu adoramos. Tinha até freio.
Meu pai também atuava em serraria, onde, algumas vezes, a sua fiel companheira me dava “de mamá” sentada numa das toras que seriam serradas. Algumas engenhocas movidas à roda d’água ficaram em alguma curva de rio
Hoje, atingindo um pouco mais que a idade que seu Tomás tinha quando faleceu, sou convicto de que ele fez muita falta, principalmente à minha mãe, que precisou reconstruir sua vida numa cidade onde não tinha ninguém por si. Sem saber escrever uma linha, palmilhou seu caminho e construiu o pouco que tem. Todos os filhos são honrados cidadãos e nenhum pereceu na mão do destino. Se o seu Tomás fosse vivo, teria orgulho de nós todos.